Controvérsias na capoeira

Os mestres de capoeira são um dos mais evidentes porta-vozes dessa prática que foi considerada crime durante o século XIX, popularizou-se através das academias durante o século XX e desde o ano de 2008 possui o título de Patrimônio Cultural Brasileiro. No papel de “porta-vozes” da capoeira, eles estão constantemente procurando demarcar os limites desse dispositivo de corpo e prática de si, “definindo o que são, o que deveriam ser e o que foram” (LATOUR, 2012, p.55) ao longo desse tempo. Para isto, vêm utilizando diferentes estratégias, visualizadas muitas vezes a partir de suas relações com o Estado. A tarefa de definir e ordenar o social deve ser deixada aos próprios atores, não ao analista. É por isso que para recuperar, certo senso de ordem, a melhor solução é rastrear conexões entre as próprias controvérsias e não tentar decidir como resolvê-las (LATOUR, 2012, p.44).

De maneira geral, dois estilos de capoeira são bem conhecidos atualmente: a capoeira regional, criada por Mestre Bimba (Manoel dos Reis Machado 1900-1974) na década de 1930, através de um método sistemático de ensino mais próximo das artes marciais e lutas esportivas, e a capoeira angola que é propagada como “capoeira mãe”, que estaria mais próxima de um antigo jogo de escravos africanos e suas tradições. O termo “angola” surge em resposta à criação da regional, enfatizando um aspecto mais cultural – a dança e o jogo – do que esportivo. Entre os vários mestres de capoeira angola, o seu maior porta-voz foi Mestre Pastinha (Vicente Ferreira Pastinha 1889-1981). Além desses dois estilos centrais, desde a década de 1990 a capoeira contemporânea, considerada uma mistura em maior ou menor grau da angola e regional, vem ganhando mais destaque e gerando resultados bastante diversificados.

Essa questão me pareceu uma controvérsia e uso a rede social/ferramenta de compartilhamento e edição de vídeos Youtube, para localizar melhor essa questão e também como forma de aliar o uso do meio audiovisual aos conhecimentos da tradição oral que permeiam a própria prática da capoeira e sua produção de arquivos.

Uma entrevista com Mestre Canjiquinha (Washington Bruno da Silva, 1925-1994) disponível no Youtube é elucidativa. Artista popular, funcionário público e malandro, ele foi o fundador do Grupo Aberrê Bahia, com o qual realizava apresentações de capoeira, samba de roda, puxada de rede, samba de caboclo e maculelê. No vídeo analisado, o documentário Capoeira em cena, produzido em 1982 pelo Instituto de Radiodifusão Educativa da Bahia – IRDEB, ele afirma que a capoeira é somente uma, em detrimentos dos dois estilos que se propagaram.

Outra evidência sobre esta controvérsia é um vídeo mais antigo sobre a capoeira da Bahia, intitulado Vadiação. Foi originalmente produzido em 16mm, no ano de 1954, por Alexandre Robatto Filho. Nele, vemos a participação de Mestre Bimba e de Mestre Valdemar, que seriam da capoeira regional e capoeira angola, respectivamente. Também estão presentes outros notórios mestres da angola, como Traíra, Curió e Caiçara.

Referências

Capoeira, qual é a sua, Angola, Regional ou contemporânea? Disponível em: http://portalcapoeira.com/Publicacoes-e-Artigos/capoeira-qual-e-a-sua-angola-regional-ou-contemporanea (Acesso em 21 de abril de 2013)

Capoeira. Disponível em: http://pt.wikipedia.org/wiki/Capoeira (Acesso em 21 de abril de 2013)

MESTRE CANJIQUINHA. Disponível em: http://www.youtube.com/watch?v=KuFI3VcsuNo  (Acesso em 21 de abril de 2013)

LATOUR, Bruno. Reagregando o social: uma introdução à teoria do ator-rede. Salvador: EDUFBA, 2012.

Vadiação. Alexandre Robatto Filho. Brasil: 1954. 8 minutos. Disponível em: http://www.youtube.com/watch?v=XH6dIe57Ts8 (Acesso em 21 de abril de 2013)

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