Cidades possíveis – Aldeia Maracanã

CIDADES POSSÍVEIS – ALDEIA MARACANÃ

“Lá no longe se percebia mais que tudo um arranhacéu cor de rosa. A jangada estava abicada na caiçara da maloca sublime do Rio de Janeiro.” (ANDRADE, 1993:55)

O Rio de Janeiro se prepara para sediar a Copa do Mundo de 2014 e as Olimpíadas de 2016.  A cidade passa por uma re-organização espacial e simbólica na qual disputas emergem à superfície do tecido urbano.  Novas partilhas do território, e do sensível (Rancière, 2009), são elaboradas diante do processo de re-ordenamento urbano, às vezes feitas na calada da noite, outras vezes, em ações turbulentas e violentas à luz do dia. Se por um lado há um projeto oficial de cidade olímpica, por outro há grupos de atores sociais que resistem. Se há uma re-elaboração dos sentidos simbólicos e físicos da cidade por uma política  municipal e estadual, há também, no enfretamento com esse poder, outras propostas, igualmente políticas e estéticas para o mesmo organismo urbano. A cidade está em constante construção, uma obra que se faz e refaz no presente, em disputas e partilhas que projetam para o futuro lugares diferenciados e modos de ser e estar na cidade. Diante dos mega-eventos esportivos, essa construção permanente se radicaliza a partir e de um evento concreto ao qual a cidade deve ser adequar em um curto espaço de tempo. Uma hipótese possível, seria pensar esse contexto específico do Rio de Janeiro como um adensamento da ideia de “canteiro de obras” (Latour, 2012).

A proposta desta cartografia de controvérsias é mergulhar no redemoinho desse imenso e complexo canteiro de obras da cidade olímpica. Para isso, irá tecer sua rede(s) a partir da disputa do prédio do Museu do Índio entre a “Aldeia Maracanã” e o Estado do Rio de Janeiro.  O edifício do museu, um sobrado em ruínas do século XIX de onde partiram as expedições do Marechal Rondon, está localizado nas proximidades do Maracanã, em área destinada ao complexo Maracanã a ser administrada por um consórcio privado.  Diversas etnias indígenas ocupavam o lugar desde 2006 até serem retiradas à força em 22 de março de 2013 por forças policiais. Os índios foram re-alocados em abrigos e um terreno em Jacarepaguá.  A cartografia de controvérsias será pensada a partir de dois questionamentos principais que são:

1. Como as ruínas de um edifício podem elaborar, na relação com diferentes atores e redes, sentidos políticos e estéticos diferenciados para a cidade?

2. Como essas mesmas ruínas, filigranas no corpo da cidade, propõe partilhas e sujeitos diferentes para uma mesma cidade?

A investigação destas duas questões se dará a partir das narrativas audiovisuais produzidas sobre a disputa em torno do edifício do Museu do Índio presentes na mídia oficial e alternativa.  Através das narrativas midiáticas, espera-se identificar e construir atores e redes, sem perder de vista a proximidade e a possibilidade de contato direto com os agentes da disputa, como os índios da “Aldeia Maracanã”, as ruínas do museu, o Estado, os ativistas envolvidos, o bairro, o estádio Maracanã, entre outros.

Macunaíma precisou vencer o gigante Venceslau Pietro Pietra para recuperar o Muiraquitã, como de forma análoga e distante, no abismo que separa o livro da década de vinte da realidade dos dias de hoje, os índios do Museu do Índio enfrentam o Maracanã, gigante adormecido em obras. Fazer a cartografia também é enfrentar e inventar gigantes, não apenas de pedras ou letras, mas justamente em algum lugar entre o concreto dos edifícios imóveis e as palavras que se agitam nos seus múltiplos suportes.

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Referências

ANDRADE, Mário. Macunaíma: o herói sem nenhum caráter. Belo Horizonte, Vila Rica Editoras, 1993.

LATOUR, Bruno. Reagregando o social: uma introdução à teoria do ator-rede.  Salvador, Editora UFBA e EDUSC, 2012

RANCIÈRE, Jaques. A partilha do sensível. São Paulo, Editora 34, 2009

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