Entre a fotografia artística e seus usos sociais comuns

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Suns (From Sunsets) from Flickr, 2006-ongoing, Penelope Umbrico

A demarcação dos territórios profissionais/autorais/artísticos, amadores/privados é própria da fotografia e da tensão que ela guarda dentro de si e em cada momento as perguntas “O que faz um fotógrafo?” e “O que faz um artista?” são colocadas e as tentativas de respostas direcionam a organização destes coletivos e de seus possíveis limites fronteiriços. Esta controvérsia referente à formação dos grupos visa problematizar dois eixos da fotografia: sua presença no campo da arte e seus usos sociais comuns, buscando compreender suas fronteiras, tensões e complementaridades contemporâneas. Pensando a fotografia enquanto rede, ou seja, coletivos sociotécnicos formados por sujeitos, discursos e tecnologias (LATOUR, 2007, 2009), pretendemos rastrear a ecologia dessas imagens em situações de exposição e circulação que oscilam entre diferentes regimes de visibilidade, situações de cruzamento entre o “amador ordinário” e o “artístico extraordinário”, compreendendo que essas imagens na fronteira tencionam e conciliam marcas da visibilidade desses dois sistemas de partilha, o excesso e a unicidade; o compartilhamento e a exclusividade. Essa partilha do sensível (RANCIÈRE, 2009) organiza no campo da fotografia as hierarquias e papéis sociais diante das funções que este dispositivo pode assumir e engendra uma constante disputa entre esses diferentes atores que buscam se afirmar e se diferir.

Aparecimentos da controvérsia em exposições de arte:

  • A “Primeira Exposição Internacional de Fotógrafos Amadores” (1893) em Hamburgo, que abre um museu à fotografia pictorialista e “oferece ao público alemão uma ampla amostra da nova vertente: seis mil obras realizadas por quatrocentos e cinquenta fotógrafos das mais variadas proveniências” (FABRIS, 2011, p.37);
  • Uma das partes da exposição “L’invention d’un art” (1989), que comemorava o aniversário de 150 anos da fotografia, trazia uma acumulação de fotos no solo que visava ilustrar o fluxo de imagens nas sociedades midiáticas;
  • A Exposição “Photos de Famille” (1990), ocorrida na ocasião do mês da fotografia em Paris, onde foram expostas três mil fotografias, número selecionado de um montante de aproximadamente cem mil fotos, vindas dos álbuns de 225 famílias;
  • A exposição intitulada “Tous photographes ! La mutation de la photographie amateur à l’heure numérique” (2007) do museu de Élysée de Lausanne, na Suíça[1];
  • A exposição intitulada “The Art of the American Snapshot[2] (2007), dedicada, conforme diz sua descrição, a dar luz à “exuberância e inventividade dos fotógrafos amadores americanos”;
  • A exposição “La République des Amateurs[3] (2011), que realizou uma retrospectiva sobre a história da Sociedade Francesa de Fotografia, a partir de uma pesquisa curatorial que selecionou 200 fotos de um total de aproximadamente 20000 imagens;
  • A exposição “From here on” [4] (2011), com a curadoria de Clément Chéroux, Joan Fontcuberta, Erik Kessels, Martin Parr et Joachim Schmidque “selecionam naturalmente o trabalho de artistas plásticos que reciclam, experimentam e remixam conteúdos coletados na web, em uma investida apropriacionista voluntariamente lúdica desenhada como princípio da ecologia numérica” (GUNTHERT, 2011 a).[5]

[1] O pesquisador André Gunthert formulou um álbum da exposição no seu perfil no Flickr (www.flickr.com/photos/gunthert),  intitulado “Tous photographes”, além de um comentário no site: www.arhv.lhivic.org/index.php/2007/05/16/394-tous-photographes

[3] A página desta exposição no site do museu Jeu de Paume conta com um vídeo explicativo sobre essa curadoria:  www.lemagazine.jeudepaume.org/2011/06/la-republique-des-amateurs

[4] Sobre a exposição, encontramos um vídeo no Youtube intitulado “ FROM HERE ON, ARLES 2011” , além de um álbum no perfil do Flickr de André Gunthert (www.flickr.com/photos/gunthert),  intitulado “From Here On”.

[5] Tradução do texto : “[…] ils sélectionnent tout naturellement le travail de plasticiens qui recyclent,  samplent et remixent des contenus  collectés  sur  la toile, dans une surenchère appropriationniste volontiers ludique, désignée comme principe de l’écologie numérique”

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