Os mapas do #15m

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Da biocomputação a os sistemas de alertas para parar despejos, as redes e cientistas sociais alrededor do movimento #15M que tem começado na Espanha em 2011 vem elevando o arte da cartografia a novas cotas de participação democrática e ação cidadã em rede. O artigo describe o contexto desta innvocão tecnosocial bottom-up e propõe uma categorizacão destas práticas diferençando mapas de análises e diagnóstico, mapas de representação do movimento, mapas conceituais e mapas para a ação.




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O novo ciclo de lutas, que começou com a Primavera Árabe e a Revolução Islandesa, e que tem tido reflexo na margem norte do mediterrâneo com o movimento 15M e Democracia Real Já, propagase na atualidade a uma escala global.

Estes movimentos se caracterizam por (a) trabalhar em dois níveis, na internet e nas ruas, com a ocupação de praças e assembleias; (b) ter uma organização autopoiética[1] de enorme escalabilidade e interatividade; e (c) produzir revoluções de código aberto, onde saberes, técnicas, práticas e estratégias são aprendidas e replicadas com melhorias pelas distintas sociedades conectadas.

Como parte fundamental da tekné[2] deste novo movimento global, está a cartografia, que revela sua enorme importância para os processos de autoorganização, de ação distribuída e descentralizada, inclusão e imaginação social.

Esta dimensão emancipadora da cartografia tem como um referente significativo o pensamento dos filósofos franceses Deleuze e Guattari, que foram os primeiros a teorizar sobre a potência da apropriação da arte da cartografia pelos movimentos sociais[3]:

“Fazer mapas, como fazem a orquí- dea e a vespa, é mais ação que representação; a cartografia, antes de representar um mundo que esteja dado, supõe a identificação de novos componentes, a criação de novas relações e territórios, de novas máquinas.”

A cartografia, como ferramenta de conheci- mento crítico e insurgência, tem uma larga trajetória no estado espanhol, e vale destacar o trabalho de Cartac ou hackitectura.net. Vinculados em um momento inicial, ao que a mídia de massa denominou como movimento antiglobalização, nos últimos anos, produziramse mapas alternativos do território geopolítico do Estreito de Gibraltar e das cidades de Sevilha, Málaga, Barcelona, Veneza e Atenas. Desde muito tempo, a cartografia vem convertendo-se em uma forma de ativismo global[4].

O objetivo deste artigo é recompilar e sistematizar as diversas cartografias produzidas desde o movimento 15M, começando nas sequências anteriores – a partir da crise de 2008 -, percorrendo mapas da corrupção até o momento atual, da organização de campanhas contra os despejos e culminando com o mapa de movimentações globais do 15 de Outubro.

É uma produção própria da era digital em que nos encontramos, de caráter audiovisual e definida pelas comunicações instantâneas em rede. Sobre a tecnologia de software empregada, alguns dos mapas são mash ups (remixes) do google maps (serviço de pesquisa e visualização de mapas e imagens em satélite da terra), que têm acertado em sua definição e ímpeto. Outros são projetos desenvolvidos com software livre, em servidores autogestionados.

Desde o ponto de vista dos conteúdos, poderíamos classificar as cartografias do 15M em quatro categorias principais:

  • Mapas de análises e diagnóstico. São mapas descritivos, que analisam dados públicos e constroem representações críticas com os mesmos. Respondem à primeira fase de “indignação” do movimento.
  • Mapas de representação do movimento. São mapas que funcionam por agregação e são, por definição, interativos. São os mapas das acampadas, de marchas e dos fluxos de atividades nas redes sociais.
  • Mapas conceituais. O mapa conceitual é uma prática usada para a representação gráfica do conhecimento. Desenvolvese uma rede na qual os nodos representam os conceitos e as conexões, as relações entre os conceitos.
  • Mapas para a ação. A última categoria é, quiçá, a mais nova e trans- formadora na fase atual da arte da cartografia cidadã insurgente e a que possui maior potencial para nos conduzir como sociedade a territórios inexplorados. São mapas criados em sua maior parte por hacktivistas e que, em muitos casos, supõem a programação e melhoria de novas ferramentas de software.




1. Mapas de análises e diagnóstico



Casas tristes

Plataforma web2.0, que visualiza as casas vazias na Espanha, esclarecendo de maneira gráfica e acessível, diferentes aspectos econômicos e sociais vinculados ao problema de acesso à moradia na Espanha. Denuncia a elevada porcentagem de casas vazias na Espanha.
http://casastristes.org



Cidades sem fronteiras

Campanha impulsionada por uma extensa rede de cidadãos espanhóis e estrangeiros, com e sem papéis, que se rebelam contra a discriminação e reivindicam a igualdade, denunciam a precarização e ressaltam os direitos de todas as pessoas que habitam as nossas cidades. Localiza espaços de exclusão, barreiras, faz denúncias, assinala lugares de encontros e tudo aquilo que possa se pensar desde a cidade com e sem fronteiras.
http://www.ciudadessinfronteras.net



Corruptódromo

Elaborado pela plataforma cidadã Não votem nel@s, situa os pontos cruciais de nosso país, onde se têm denunciado casos de corrupção política. Destacam especialmente o litoral levantino (parte do mediterrâneo ocidental da Espanha) e a Comunidade de Madri. A plataforma Não vote nel@s, que pede o não-voto ao PP, PSOE e CiU, tem desenvolvido um Wiki (ferramenta de edição online), onde os internautas podem incorporar mais lugares e onde se tem denunciado casos de corrupção. Já contam com 177 casos documentados.
http://wiki.nolesvotes.org/wiki/Corruptódromo



O Disparate

A Espanha é um dos principais atores na compra e venda internacional de armas. Cada ano, as distintas comunidades autônomas importam e exportam armas a diversos países, com valores de milhões de euros. Quem conhece quanto gasta a sua comunidade com a compra de material bélico? Quem sabe a que países se vendem as armas produzidas em sua comunidade? O Disparate é uma iniciativa que pretende mostrar com claridade o opaco mercado das armas, o grande disparate do comércio legal da morte.
http://www.eldisparate.de



2. Mapas de representação do movimento



Mapas das acampadas

No mapa, podem-se observar tanto as acampadas que atualmente estão surgindo nas distintas praças, quanto as que têm previsão de acontecer nos próximos dias e as que foram desocupadas pela polícia.
“As acampadas são somente um símbolo. Na realidade estamos em todos os lados. Educamos seus filhos, preparamos suas comidas, recolhemos seu lixo, conectamos suas chamadas, dirigimos suas ambulâncias e inclusive os protegemos enquanto dormem. As pessoas não deveriam temer o governo, o governo deveria temer a seu povo. Nós somos o povo, nós somos o sistema, somos anônimos, somos legião. Não esquecemos, não perdoamos, espere-nos.”
http://www.thetechnoant.info/campmap/



Mapa das conversas

Trends Map é uma ferramenta de “escuta ativa” que, em tempo real, analisa todas as conversas que se produzem no twitter. Tem uma visualização em tempo real sobre o mapa, geolocalizando as palavras, os hashtags que estão sendo produzidos no momento, para poder observar quais são os temas por países e cidades.
http://trendsmap.com/topic/%2315o



Interações entre usuários 15M

Mostra geoposicionada de mensagens entre os participantes do movimento 15M em redes sociais. Uma linha entre os pontos indica o que o nodo de partida tem mencionado nesse momento ao nodo de chegada. Realizado pelo Instituto de Investigação em Biocomputação e Física de Sistemas Complexos da Universidade de Zaragoza.
http://15m.bifi.es



3. Mapas conceptuales



Mapa conceitual da acampadasol

Este mapa conceitual se transborda a cada instante e está permanentemente atualizado. É somente uma ajuda para pintar o irrepresentável. É um mapa humilde, incompleto, inerentemente precário.
http://www.unalineasobreelmar.net/mapa-conceptual-de-la-acampada/



Mapa da não-violência
</a>
<a
href=”http://www.unalineasobreelmar.net/2011/08/15/mapa-conceptual-de-la-no-violencia-del-15-m/”>http://www.unalineasobreelmar.net/2011/08/15/mapa-conceptual-de-la-no-violencia-del-15-m/




4. Mapas para a ação



Mapa para a denúncia do 27M

É um mapa da praça Catalunha (Barcelona, Espanha), que inclui um formulário criado com o objetivo de reunir informação sobre o que sucedeu no dia 27 de maio de 2011, na “operação de limpeza”, por parte dos órgãos de segurança. Na dita operação, o corpo policial agrediu muitas pessoas, roubaram objetos pessoais, foi limitado o direito de reunião, entre muitas outras violações dos direitos humanos. A finalidade deste mapa-formulário é saber quantas pessoas foram prejudicadas e de que maneira o foram, para poder fazer um informe mais completo.
http://acampadadebarcelona.org/denunciacolectiva27m



Campanha Pare os Despejos

Os ativistas de tomalaplaza.net, em colaboração com a PAH (Plataforma de Afetados pela Hipoteca), têm desenvolvido um mapa de despejos, para que qualquer pessoa que queira colaborar (agregando informação, participando na resistência anti-despejo ou solicitando ajuda contra seu próprio despejo), pode agora fazê-lo facilmente. A ferramenta envia alertas para se saber quando e onde famílias vão ser despejadas.(5)
http://stopdesahucios.tomalaplaza.net



Um mapa de ação do tamanho do planeta



Cinco meses depois do 15 de Maio, repete-se uma convocatória como a de então, mas o mapa já não é mais o do estado espanhol, mas o mapa do mundo. A demanda por uma democracia participativa se estendeu a quase metade dos países do planeta e, em mil cidades, acontecerão marchas e ocupações de praças sob o lema unitário de “Unidos pela mudança global”.



Mapa da mobilização global de 15 de outubro

Dando uma olhada no mapa do mundo sobre o qual se tem representado com um ponto vermelho cada um dos atos programados, dá para se ter uma ideia de como, em poucos meses, a indignação tem se estendido como uma mancha de tinta. As ocupações que começaram em setembro, nos Estados Unidos, continuam e existem manifestações previstas em lugares tão distintos e afastados como Santo Domingo, Hong Kong, Dakar, Belo Horizonte, Johanesburgo, Cairo, Melbourne e Moscou.
http://map.15october.net
http://convocatorias.democraciarealya.es/?id_plan=3

“RT @isaachacksimov: veo más de 80 peticiones/segundo a 15october.net desde hace 36 horas, algo va a pasar… algo grande… #15Oready”


Notas:
[1] A autopoieses é um neologismo proposto em 1971 pelos biólogos chilenos Maturana e Varela, para designar a organização dos sistemas vivos. Uma descrição breve seria dizer que a autopoieses é a condição de existência dos seres vivos na contínua produção de si mesmos.
[2] Aristóteles descreve a arte (tekné) como uma ação a partir da qual o homem produz uma realidade que antes não existia.
[3] Félix Guattari e Gilles Deleuze que, em Mil Platôs (1980), propunham os princípios de cartografia e decalcomania para explicar o conceito de rizoma. Ainda hoje nos referimos mais aos territórios reticulares do que ao rizoma. Continua sendo interessante a relação que Guattari estabelece entre seu conceito de cartografia e os de agenciamento, máquina e produção de subjetividade. O arquiteto José Pérez de Lama tem escrito extensivamente a respeito.
[4] Ver o trabalho de Bureau de Etudes da França ou Iconoclasistas da Argentina.
[5] Entre 2007 e 2011, produziram-se cerca de 500.000 execuções hipotecárias no estado espanhol. Milhares de famílias que serão despejadas de suas casas pelas mesmas entidades financeiras que têm provocado a crise e foram resgatadas com dinheiro público. É inadmissível e intolerável que um Estado Social e Democrático de Direito esteja produzindo milhares de desocupações, sendo que existem milhões de espaços vazios que não estão cumprindo a sua função social. Diante da violação sistemática de nossos direitos, a PAH (Plataforma de Afetados pela Hipoteca) faz um chamado à ação. Estamos convencidos de que chegou o momento de levantar nossa voz e gritar: Não permitiremos mais desocupações! Não permitiremos que o banco nos tire de casa!



Por Pablo de Soto

Texto publicado originalmente em espanhol em Periodismo Humano e traduzido em Português e publicado no Brasil como parte do Dossier: Por uma cartografia crítica da Amazônia recorte/processo sobre arte, política e tecnologias possíveis editado por Giseli Vasconcelos e equipe. Pesquisa ampliada sobre os mapas do 15M.

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